Cólica dos bebês

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Doze perguntas e respostas sobre a tão temida cólica dos bebês

Todo mundo tem um remédio ou dica milagrosa para curar a cólica do bebê. Com certeza você vai ouvir mil e um conselhos como cortar frutas ácidas, leite e chocolate da dieta materna, oferecer chá de camomila ao bebê, chupeta passada na funchicórea, bolsas térmicas e massagens. Mas a dica mais importante e infalível é a paciência, o comportamento do bebê é influenciado pelo ambiente familiar, portanto, um ambiente calmo contribui muito para o bebê ficar mais tranquilo. Caso o pediatra identifique que as crises de choro são cólicas típicas do recém-nascido, o melhor é esperar o tempo passar. Por volta dos 3 a 4 meses, essas crises de choro misteriosamente, desaparecem do mesmo jeito que começaram, sem deixar sequelas.

1. Todos os bebês terão cólica?
Em 2001, Lucassen et al demonstraram que a cólica neonatal afeta até 28% das crianças nos primeiros meses de vida e é um motivo frequente de consulta pediátrica nos primeiros meses de vida. Portanto, nem todo bebê terá cólica, cada indivíduo é de um jeito no que diz respeito a fatores genéticos e biológicos. Além disso, tem a influência do ambiente em que o bebê vive. Mães muito ansiosas, agitadas e com uma dinâmica familiar alterada tem maior chance de ter bebês com cólicas nos primeiros meses de vida. Muitos estudos mostram que os primeiros filhos tem incidência maior de cólicas do que comparados aos próximos filhos.

2. Quais são as causas das cólicas?
A cólica do lactente já é conhecida pelos pediatras há mais de um século, mas a sua causa continua a representar um enigma. Diferentes causas têm sido aventadas, e estas podem ser divididas em gastrointestinais e não gastrointestinais.

Dentre as causas não gastrointestinais devemos considerar: temperamento da criança, ansiedade dos pais (que pode ser agravada por inexperiência do primeiro filho e falta de apoio), depressão materna, personalidade da mãe e problemas na dinâmica familiar.

No campo gastrointestinal foram levantadas algumas hipóteses cujas pesquisas não foram totalmente conclusivas:
• Motilidade intestinal alterada – hiperperistaltismo colônico e pressão retal aumentada. Fala a favor dessa hipótese a ação efetiva de alguns antiespasmódicos.
• Hormônios intestinais – a motilina, que exagera a peristalse intestinal, parece estar aumentada nos lactentes que sofrem de cólicas.
• Excesso de ar intragastrintestinal – a aerofagia poderia ser causa, mas também pode ser conseqüência do choro. O uso de antiflatulentos, como a simeticona (freqüentemente utilizada na prática), não se mostrou mais eficaz que o placebo, em estudo multicêntrico randomizado, o que fala contra essa hipótese.
• O excesso de gases também foi atribuído a uma má absorção fisiológica e transitória da lactose, mas as primeiras pesquisas não foram confirmadas.

3. Como descobrir se o choro do meu filho é cólica realmente?
Os sintomas da cólica geralmente seguem os critérios de Wessel, conhecida pela regra dos 3 – a cólica começa por volta de 3 semanas, duram 3 horas, por no mínimo 3 vezes por semana e 3 semanas consecutivas e melhoram por volta dos 3 meses. O pico das crises de choro ocorre por volta das 6 semanas tanto para crianças nascidas a termo quanto os prematuros.

Comportamento do bebê no momento da cólica: o bebê chora violentamente, estica e dobra as pernas, fica com a face avermelhada, não aceita alimentação e exclusão de outras causas de choro como fome, fralda suja, calor ou frio.

4. Quando precisamos nos preocupar com outras causas e investigar com exames?
Na prática pediátrica, os critérios de Wessel podem ser muito úteis para determinar a conduta. Os casos que se enquadram nesses critérios devem receber do pediatra explicação, tranquilização e apoio. Os casos que se afastam muito dos critérios devem ser investigados.

Choro contínuo nas duas primeiras semanas de vida levantam a suspeita de fome, inclusive por mamadas ineficientes (uma pega errada) quando devemos controlar o ganho de peso de perto, talvez semanalmente.

Nos casos associados à regurgitação acentuada e a mamadas nervosas, interrompidas, considerar refluxo gastresofágico patológico, e nas famílias atópicas (alérgicas), em que o lactente apresenta choro acentuado logo após as mamadas, e especialmente se a criança tem outras manifestações alérgicas, pesquisar alergia a proteína do leite de vaca, inclusive nas crianças que estão em aleitamento materno exclusivo.

5. O meu bebê completou 4 meses e ainda tem cólica. Isso é normal?
Um estudo canadense mostrou que 6,4% dos crianças ainda apresentam cólicas persistentes aos 3 meses de idade. A grande maioria melhora quando completa 3 meses, mas pode ser normal uma criança ainda ter cólica com 4 meses, mas sempre é bom levarmos ao pediatra para verificarmos o ganho de peso/altura e excluir outras causas de choro.

6. Se o bebê mama no peito, a alimentação da mãe influencia na presença e na intensidade das cólicas?
Há pouca relação comprovada entre a cólica e a alimentação da mãe, o que sabemos é que a mãe necessita de uma dieta equilibrada com alimentos de todos os grupos alimentares como arroz e grãos em geral, leguminosas, carnes, frutas, verduras, leite e derivados para que o bebê seja nutrido adequadamente.

Um estudo publicado no Pediatrics em 2005 demonstrou que a retirada de alguns alimentos alergênicos da dieta materna como leite de vaca, soja, ovo, trigo, castanhas e amêndoas, chocolate e peixes e frutos do mar reduziu as crises de choro nos lactentes em aleitamento materno exclusivo com até 6 semanas de vida, porém este achado ainda é inconclusivo devido as limitações do trabalho.

Brócolis, couve-flor, repolho e cebola apesar de serem ricos nutricionalmente, podem alterar o sabor do leite e causar desconforto e irritação no bebê, que normalmente duram até 24 horas. O chocolate pode causar irritabilidade e aumentar os movimentos intestinais do bebê. As carnes vermelhas da mesma forma que os grãos, por serem digeridas mais lentamente, podem ocasionar gases. Portanto, pode ser interessante evitar esses tipos de alimentos nos casos de consumo em excesso e com bebês com cólicas intensas, mas sempre peça ajuda ao seu pediatra antes de cortar alimentos da sua dieta.

O único alimento que sabidamente aumenta as cólicas do bebê, se ingerido pela mãe, é o leite de vaca, mas somente se ela tiver alergia à proteína do leite de vaca ou intolerância à lactose. É possível que a mulher tenha esses problemas e não saiba, ou apenas descubra durante a amamentação, quando, em geral, por orientação médica, aumenta o consumo de leite e derivados. Nesses casos, orientamos as mães a consumirem o leite com baixa lactose ou trocarem para o leite de soja, mas sempre sob supervisão médica.

7. Bebê que toma fórmula industrializada tem mais cólica do que o bebê
que é alimentado no seio materno?
Não há consenso geral sobre essa questão. Não se verificou diferença significativa entre crianças em aleitamento materno e as que recebem fórmula infantil na mamadeira, embora um estudo tenha mostrado que o pico da freqüência de cólicas era mais precoce nas crianças em aleitamento artificial (duas semanas de vida) do que nas amamentadas (seis semanas de vida). O importante é ter uma boa orientação em relação a pega na mamada para o bebê engolir menos ar e, consequentemente,
ter menos cólicas.

8 No caso dos bebês que não são amamentados, há alguma fórmula infantil que cause menos cólica nos bebês?
Novamente no Pediatrics, 2007, um outro estudo demonstrou que o uso de Lactobacilos reuteri melhorou os sintomas de cólica nos bebês amamentados exclusivamente no seio dentro de uma semana de tratamento, se comparados com crianças que receberam simeticona gotas, o que sugere que as fórmulas enriquecidas comprobióticos podem ajudar no tratamento da cólica do lactente.

O importante é discutir o caso com o pediatra, cada caso é um caso diferente.

9. Quais as formas mais eficazes de combate a essa dor?
A dica mais importante e infalível é a paciência, o comportamento do bebê é influenciado pelo ambiente familiar, portanto, um ambiente calmo contribui muito para o bebê ficar mais tranquilo. É preciso quebrarmos um ciclo vicioso negativo que existe quando a criança tem cólica, os pais ficam nervosos, o bebê sente-se mais estressado e chora mais, causando ansiedade crescente nos pais e assim, sussivamente.

O pediatra tem um papel importante nessa hora acalmando os pais, explicando que a cólica é benigna, não deixa sequelas, transmitindo tranquilidade e mostrando que se trata de uma questão normal da idade, não de uma doença.

TÉCNICAS PARA ALIVIAR A CÓLICA:
• massagem circular na barriga
• compressas mornas na barriga do bebê
• deitar o bebê de bruços sobre seu peito ou barriga para que o calor de seu corpo aqueça a barriga da criança
• segurar o bebê de bruços no colo, de modo que sua mão fique em seu abdome
• movimentos de esticar e fletir as pernas a fim de eliminar alguns gazes
• excesso de agitação, como som e TV altos ou brincadeiras prolongadas, também pode desencadear ou turbinar as cólicas. Respeito ao ritmo e ao sono do bebê é fundamental
• medicamentos somente sob orientação do pediatra

10. Chás e funchicória realmente funcionam?
Há pediatras que admitem o uso desses recursos, outros que não recomendam, portanto converse com o seu, antes de decidir. Não há comprovação da eficácia, mas em alguns casos parecem trazer alívio. Se a criança mama no peito, o chá de camomila ou erva-doce, deve ser oferecido na colherzinha e nunca na mamadeira, para não interferir na amamentação e a funchicórea pode ser colocada na chupeta. A quantidade também deve ser pequena. A venda da funchicória voltou a ser liberada e o alívio da cólica com o uso do pózinho na chupeta parece estar muito mais relacionado com o sabor adocicado do que com as propriedades anti-cólicas do fitoterápico.

11. É verdade que enrolar o bebê ajuda a aliviar as cólicas?
O método antigo, que com certeza nossas avós faziam, que é enrolar o bebê como se fosse um “charutinho” voltou à moda. Esta medida pode ajudar porque deixa o bebê mais quentinho e protegido, simulando o ambiente apertado do útero nos últimos meses da gestação. O colo da mãe pode ter o mesmo efeito de aconchego e segurança, sem restringir tanto os movimentos do pequeno. Você pode fazer o que se adaptar melhor e o que sentir que acalma mais o seu filho.

12. É verdade que os bebês que não arrotam após as mamadas tem mais cólicas?
Se o bebê tiver uma pega correta no seio com a boca cobrindo boa parte da aréola e não somente o mamilo e as lábios inferiores ficarem voltados para fora, provavelmente ele não vai engolir ar e não vai arrotar depois da mamada. Caso o rescém-nascido engula ar durante a mamada e não arrotar logo depois, pode haver a formação de gases e, consequentemente, cólicas. No caso de bebês que tomam leite na mamadeira, no momento da mamada, o bico deve estar sempre cheio de leite para evitar a
entrada de ar.

Fonte: Pediatrics 2005 e 2007 e Sociedade Brasileira de Pediatria

(Foto destaque: Freepik)

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